[GUTSEMBATSEMBA] Do kinyarwanda, erradicar.
- Rotina entre livros
- 6 de jul. de 2019
- 2 min de leitura
“Baratas” é a obra autobiográfica de Scholastique Mukansonga. Um livro gerido a partir do luto, destinado a velar familiares, amigos e vizinhos que morreram em Ruanda no genocídio de 1994.
“Os assassinos quiseram apagar até suas lembranças, mas no caderno escolar que nunca me deixa, registro seus nomes, e não tenho pelos meus e por todos aqueles que pereceram em Nyamata, nada além deste túmulo de papel”.
Ao terminar “Baratas”, fui pesquisar um pouco da história e das origens do apartheid étnico em Ruanda, para entender quais foram as razões dessa barbárie. Decerto, já tinha estudado sobre o genocídio no colégio, mas, obviamente, não tinha sido o suficiente... eu dominava a história europeia e não sabia quase nada sobre a história africana. Logo, este livro deixou em minha boca um gosto amargo (talvez culpa?) por não ter dado a devida atenção ao assunto. Ele tornou-se, assim, triste não só pelas histórias reveladas pela autora, mas também pelo peso da consciência histórica. Sabemos o que ocorreu, mas será que realmente nos importamos?
Com essa investigação, certamente encontrei dados, números, explicações, mas depois de um certo tempo, essas “razões” que eu buscava tornaram-se irrelevantes. Eu queria racionalizar um sentimento, catalogar irracionalidades.
O ódio não nasce de um dia para o outro, afinal. Ele se origina de um processo, tal como uma árvore que nasce a partir de uma semente. Do mesmo modo, o ódio dos hutus em relação aos tutsis não surgiu de um dia para o outro: ele começou com uma fagulha, foi estimulado pelo europeu imperialista e culminou no genocídio.
E Mukansonga, em seu livro, nos mostra exatamente isso. Sua família sofreu com a “exclusão democrática” desde meados dos anos 60, quando os hutus assumiram o poder, até 1994. Ela, durante sua infância, adolescência e juventude, testemunhou a gradual redução de toda uma etnia em “inyenzis”, baratas, uma coisa qualquer, subumana, algo que deveria ser exterminado.
“É como se não tivéssemos existido jamais. E, no entanto, minha família viveu lá, na humilhação, no medo de cada dia, na expectativa daquilo que aconteceria e que não sabíamos nomear: o genocídio.”
O fim do livro, todos já sabem. Não há nenhum spoiler. Mukasonga sobreviveu e nos contou não só a sua história, mas também daqueles que não tiveram alguém para velar os seus corpos.
Sobreviveu e usou a escrita para redimir-se. Sua redenção por ter sido escolhida para viver.
“Gostaria de escrever esta página com as minhas lágrimas”.

E assim eu chorei junto com ela.


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